Tédio, essa sensação estranha que consome sua energia, sua força vital. Essa coisa esquisita que cresce dentro da gente levando consigo toda a sua... sua... vida.
Sabe quando você passa a semana desejando que o feriado chegue logo pra você não ter a obrigação de fazer extamente nada? Você conta os minutos, que a essa altura já não passam. Cada segundo se arrasta no relógio e quando finalmente o fim de semana chega...
Ah... quando o fim de semana chega, os minutos não se arrastam, ou contrário, eles voam e quando você pára e analisa, chegou o domingo e você não faz nada. Exatamente aquilo que você imaginou, planejou, desejou: fazer nada.
Porém, entre o desejar fazer nada e fazer nada, existe aquela palavrinha do início do texto: o tédio.
Nada para fazer, nenhum lugar pra ir, um dia lindo lá fora. Você se imagina curtindo o Sol que raramente você vê, pois passa o dia trancado no trabalho, mas não passa de imaginação. Daí, surge em sua cabeça: "que saco! nada prá fazer!". Pois não é isso que se desejou? "Nada prá fazer"!
O tédio transforma seu dia de maneira tão devastadora, que se você tivesse um dia a mais pra não fazer nada, correria o risco de desejar voltar ao trabalho. O tédio tira de dentro de você toda e qualquer graça de um feriado.
E o pior, tédio é um ciclo vicioso, pois conforme ele cresce dentro da gente, menos vontade você tem de fazer alguma coisa e, consequentemente, mais tédio você sentirá!
Aff... o ser humano é um bicho muito complexo, mesmo.
A pergunta é: como vencer o tédio? Juro que fiquei parada, olhando o monitor, tentando descobrir uma resposta para essa pergunta, mas sinto muito: muitas respostas vieram, nenhuma convincente.
Cada um tem de saber como enfrentar seu próprio tédio.
Não me perguntem como eu enfrentei o meu, porque se eu tivesse vencido o meu inimigo, eu não estaria escrevendo este texto agora... Mas, fique aí com uma musiquinha da banda Biquini Cavadão que descreve exatamente como essa sesação estranha pode te consumir. Um dia você também saberá como vencer esse sugador de energia vital chamado Tédio.
Agora se você já descobriu como vencê-lo. Parabéns! Você acaba de me deixar entediada e com uma pontinha de inveja... é como eu digo... sempre há como piorar.
Depois desse dia, eu tinha que inventar desculpa após desculpa por não levar a tal foto.
Numa sexta-feira, cheguei em casa e reparei que tinha um recado na secretaria eletrônica.
“Oi prima, aqui é o Felipe. Quando chegar, liga pra mim... beijo”.
-Ai que saco! O que você quer, hein? – resmunguei enquanto discava.
-Alô! – era Felipe. Ele vivia no interior do Paraná.
-Oi, Felipe, sou eu. Você me ligou?
-Oi prima! Sim, liguei! É que surgiu uma proposta de emprego aí em São Paulo e eu não tenho onde ficar. Será que eu poderia ficar em seu apê por uns dias? A gente divide as despesas.
Uma idéia me veio à mente.
-Sem problemas! Será um prazer.
Dias depois, eu arrastei as três amigas pro banheiro e estendendo uma foto minha com Felipe, disse:
-Aqui está! A gente tirou essa foto num restaurante que a gente gosta.
Animadas, elas pegaram a foto.
-Aí... ele é lindo mesmo.
-Fazem um casal perfeito! Tão perfeito quanto a aliança de vocês.
Eu somente sorria.
-Já sei! – disse uma delas – Neste fim de semana vamos sair todos juntos!
Todas concordaram.
-Vou falar com o Eduardo...
-Falar nada... você vai comunicar, não aceitamos um “não” como resposta.
Apesar de adorar ter o Eduardo como “namorado”, eu me enrolava cada vez mais. Porém, também não conseguia cogitar a possibilidade de abandoná-lo. Eduardo, existindo ou não, era tudo o que eu sempre quisera pra mim.
Em casa, eu convidei meu primo para sair no fim de semana e ele aceitou.
-Só te peço uma coisa, Fê.
-Pode falar.
-Eu sei que você vai achar estranho, mas... nesse dia... você se importaria de se chamar Eduardo?
-Na verdade não, mas por que isso?
-Um dia eu te explico... eu acho...
E no fim de semana foi tudo bem. Nós saímos. Elas conheceram pessoalmente o “Eduardo”.
-Sabe o que ta faltando agora? – perguntou uma delas.
-Não...
-Um beijinho... vai... vocês não deram um beijinho desde que chegaram.
Felipe me deu um beijo no rosto.
-Não... um beijo de verdade.
-Mas assim, na frente de todos? – perguntou Felipe.
-Qual o problema?
-Vocês são doidas. – respondeu ele e a história acabou por aí mesmo.
“Ele é tímido”, “ele está ocupado”, “ele está viajando”; eu não agüentava mais aquilo.
Um dia, cheguei triste e sem a aliança ao trabalho. Ninguém disse nada. Já entendiam o que tinha acontecido.
-Nós estávamos em mundos diferentes... só isso.
Nesse dia, cheguei em casa e joguei-me no sofá. Com os olhos cheios de lágrimas, vi meu primo se aproximar. Eu deitei em seu colo, ele disse:
-Você quer me contar alguma coisa?
-Você vai me achar uma louca.
-Tente...
E contei minha história. Felipe achou estranho, mas “deveria ser coisa de quem morava sozinho há muito tempo”.
“Eduardo já fazia parte de mim. Eu perguntava e escutava sua voz me respondendo; à noite, ele me dizia “boa noite”, reclamava quando ele não estava por perto e dava problemas no meu PC (ele quem entendia disso). Comprava livros que ele aprovaria, ia a lugares que ele freqüentaria. Foram os cinco meses mais felizes da minha vida. Foi a ilusão mais perfeita que alguém poderia criar”.
Eu chorava. Sofria por perder alguém que nunca tivera, aliás, que nunca existira.
Nós nunca havíamos discutido ou nos desentendido. Eduardo era sinônimo de alegria, só me fizera e trouxera coisas boas.
Naquele momento, eu percebi que dar adeus a uma ilusão era muito mais difícil do que encontrar alguém de verdade.
-Eu ainda não entendo o que aconteceu hoje, mas adorei esta tarde.
-Existem coisas que não precisam ser entendidas...
Não trocamos telefone nem e-mail nem qualquer outro meio de comunicação. Trocamos apenas um longo e carinhoso beijo, e assim, Eduardo saiu do carro, dando um “até logo” e eu voltei para casa.
Apesar de ser um sábado, ao chegar em casa, eu fiz o que fazia normalmente. Tomei um banho e fui para cama. Relembrava com detalhes o que havia acontecido aquele dia. O olhar e o sorriso de Eduardo. E com essa imagem, adormeci.
Acordei com o despertador tocando às 06:30 da manhã: “estranho, era para estar desligado”. Mesmo aquilo não estragaria o domingo depois de um sábado tão... diferente.
Desliguei o despertador e tentei pegar no sono. Levei um susto quando a TV ligou. Eu usava o relógio da televisão como um reforço para despertar, ou seja, eram 06:45.
Lutava contra o sono, quando escutei na TV: “Bom dia, hoje, 05 de maio, quinta-feira, promete um dia chuvoso em toda cidade”.
“Quinta-feira?”
Peguei o celular em cima do criado mudo, ele também denunciava a data. Vi o quarto com as roupas que havia usado para trabalhar, o laptop ao lado.
“Então...”
Meus olhos encheram-se de lágrimas quando percebi que o que eu vivera um dia antes era somente um sonho.
Tanto esforço para lembrar-me do último sonho, tinha que ser logo aquele?
Ainda chateada, arrumei-me e fui trabalhar. Mas parada no trânsito, eu recordava de meu sonho. E por mais estranho que poderia parecer, eu sentia o abraço e o beijo de Eduardo. Pensava nele como se ele fizesse parte de minha vida. E foi justamente por isso que um sorriso apareceu em meu rosto e eu sabia que nem a chuva daquele dia poderia me roubar aquela felicidade.
Minhas amigas notaram a diferença. Já há dias que eu parecia mais leve, mais feliz.
Não resistindo, uma delas perguntou na hora.
-O que aconteceu, hein? Você anda com cara de quem está apaixonada.
As outras concordaram e me pressionaram a contar quem era o “bonitão”.
-Está bem, está bem... eu conto. O nome dele é Eduardo.
Minhas amigas alvoroçadas queriam detalhes. E eu com os olhos brilhando, contei como havíamos nos “conhecido”.
E dia após dia, eu inventava detalhes para permitir que a história parecesse cada vez mais real.
-Em quê ele trabalha?
Pega de surpresa, vacilei, mas respondi:
-Ele... ele trabalha no banco. Na área de informática, sistemas... algo assim. Não sei direto, é muito complicado.
-E como é o apartamento dele? Você já foi lá, né?
-Sim... não é muito grande, mas ele soube decorar muito bem, apesar disso da pra perceber que quem mora lá é um homem.
-Nossa! Imagina... se ele é tão bonitão como você diz ser, de social deve ficar ainda mais gato. E ainda entende de decoração. Com todo respeito, é claro. Você precisa trazer uma foto dele pra gente ver!
-Claro... claro...
Depois desse dia, eu tinha que inventar desculpa após desculpa por não levar a tal foto.
Numa sexta-feira, cheguei em casa e reparei que tinha um recado na secretaria eletrônica.
Depois de uma curta caminhada, eu encontrei uma árvore que fornecia uma gostosa sombra, sentei-me embaixo dela, abri o livro e enquanto lia, sentia a brisa que refrescava o dia tão ensolarado.
Mal chegara ao fim daquela página, uma voz me tirou a concentração.
-Muito bom esse livro. Tem um final surpreendente. É a primeira vez que o lê?
-Sim – respondi ainda sem entender o que acontecia ali. Eu olhava aquele homem em pé à minha frente sorrindo, e tentava saber se o conhecia. Será que era um morador do prédio? Será que era algum colega da faculdade que não via há muito tempo? Será que era algum funcionário novo da empresa?
-Bom... se é a primeira vez que lê, então não vou falar nada sobre o fim. Já li diversas vezes e nunca me canso. – e estendendo a mão – Prazer, meu nome é Eduardo.
-Prazer, Beatriz – respondi cumprimentando aquele rapaz. E com certeza eu ostentava no rosto a feição de quem perguntava: “quem é você?”
Com a maior naturalidade, Eduardo sentou-se ao meu lado e continuou:
-Desculpe atrapalhar sua leitura, mas lá de longe, te vi sentada aqui; sozinha e ao aproximar-me percebi que lia meu livro favorito... também reparei em como é bonita... Então uma voz dentro de mim disse: “vai lá. O máximo que ela pode fazer é dar-lhe um belo de um tapa na cara”. Não custa nada tentar, né?
E diante do sorriso daquele desconhecido, eu sorri também e só consegui dizer:
-É...
-Você mora longe daqui?
-Meia horinha de carro, e você?
-Cinco minutos à pé. Adoro vir pra cá nos fins de semana, esfriar a cabeça, esquecer os problemas do dia-a-dia.
E ainda sem conseguir acreditar no que estava acontecendo ali, fechei o livro, coloquei-o no chão e me deixei levar pela conversa daquela pessoa que de conhecida só tinha o nome.
Horas se passaram, eu saí daquele estado de entorpecimento quando um vento mais frio bateu e eu senti os pêlos dos braços se arrepiarem. Percebi que o Sol tão radiante já se despedia e meu estômago deu sinal de vida, afinal, eu não tinha almoçado.
Como que adivinhando meus pensamentos, Eduardo disse:
-Você deve estar com fome, eu também estou. Pra compensar por eu ter acabado com sua leitura, que tal irmos ao shopping aqui perto fazermos um lanchinho. Eu pago.
Poucos instantes depois, nós dois estávamos na praça de alimentação do shopping. Conversávamos como se nos conhecêssemos há tempos.
Gostávamos das mesmas coisas, conhecíamos as mesmas coisas, freqüentávamos os mesmos lugares, mas o destino encarregou-se de fazer com que nos encontrássemos naquele dia.
Subitamente, uma aura de tristeza tomou conta de nós dois. Ambos sabíamos: a hora da despedida estava chegando; nós não queríamos, mas parecia inevitável.
Mas do nada, surgiu um sorriso no rosto de Eduardo e ele propôs:
-Já que estamos aqui, que tal um cinema?
-Mas olhe nossas roupas!
-E daí? As pessoas querem ver o filme, não a gente!
Também sorri e aceitei a proposta. Sabia que não poderíamos conversar enquanto víamos o filme, mas o que eu desejava era estar ao lado dele.
Eu nem prestei atenção ao filme, minha mente viajava e só voltava a si quando Eduardo fazia algum comentário sobre a comédia-romântica que assistíamos.
Porém, o momento da despedida havia chegado.
Enquanto caminhávamos para o estacionamento...
-Gostou do filme? – perguntou Eduardo.
Esforçando-me para lembrar-me do que se tratava a história, respondi:
-Claro! Adorei!
Entramos em meu carro e pouco depois eu parava em frente ao condomínio onde Eduardo morava. Um breve momento de silêncio, e eu disse:
-Eu ainda não entendo o que aconteceu hoje, mas adorei esta tarde.
-Existem coisas que não precisam ser entendidas...